Call for Papers (2022/1)

 

 

 

 

 

 Breviculum (c. 1321-1330). Karlsruhe, Badische Landesbibliothek, Cod. St. Peter perg. 92, fol. 11v.

Regimes de Polemicidade no Mundo Medieval

Organizadoras:
Ana Paula Tavares Magalhães Tacconi (USP)

Patrícia Antunes Serieiro Silva (USP)

Esta chamada pretende reunir contribuições que privilegiem, em suas análises, aspectos relativos às polemicidades no mundo medieval, período definido por Bénedicte Sère como “uma ciência da disputatio, de um saber-fazer da controvérsia ou ainda de uma prática da polêmica” (1).  De fato, o medievo coleciona temas e episódios de intenso confronto verbal: a querela iconoclasta, as querelas da época “gregoriana”, a querela entre seculares e mendicantes, as diversas controvérsias religiosas entre católicos e “inimigos” (pagãos, hereges, judeus, muçulmanos, protestantes etc.), a querela dos universais... Apenas para citarmos alguns!


Pode-se dizer que a “polêmica” – e a sua congênere “controvérsia” –, como campo de estudo dos historiadores, especialmente dos medievalistas, é algo mais ou menos recente e, por isso, ainda em construção. Uma das razões para o interesse historiográfico atual pelo tema tem origem, conforme observou Corinne Leveleux, no próprio contexto contemporâneo, impregnado de controvérsias cotidianas, estimuladas pelas redes sociais (2).  Obviamente, as duas formas de polêmica – a do presente e a do passado – não são as mesmas. Contudo, elas produziriam consequências similares, como os “efeitos polarizadores” e a preocupação com as “comunidades de opiniões”, reivindicadas ou denunciadas (3). 


Entende-se por “polêmica”, do grego polemikos, uma “guerra verbal”, um “duelo de palavras”, entre, ao menos, dois enunciadores situados em posições antagônicas. Nesse contexto, a tomada da palavra se configura, fundamentalmente, pelo ataque e a oposição, cuja intenção é a desqualificação sistemática do adversário, real ou imaginário, por meio de um enunciado injurioso e difamante. Por outro lado, é importante esclarecer que a polêmica não é considerada propriamente um gênero literário, nem mesmo podendo o vocábulo ser encontrado nos textos medievais. Em vista disso, nos valemos da locução “regimes de polemicidade”, proposta por alguns historiadores (4), por transmitir a ideia de maior ou menor grau da polêmica, resolvendo, assim, em partes, as dificuldades impostas pelo termo.


Numa perspectiva discursiva, o discurso polêmico pode ser compreendido como um “dispositivo”, tal como considerou Delphine Denis com base no conceito de Giorgio Agamben, pois ele: a) é um conjunto heterogêneo, abarcando coisas discursivas ou não (instituições, leis, proposições filosóficas etc.); b) tem sempre um objetivo estratégico definido e se assenta numa relação de poder; c) e, por fim, decorre das interseções entre o poder e o saber (5).  Sobre esse último ponto, a título de exemplo, não por acaso, um saber especializado e autorizado sobre os opositores da Igreja (hereges, judeus, muçulmanos etc.) foi abundantemente produzido por polemistas católicos nas controvérsias religiosas medievais. 


Perante o exposto, incentivamos trabalhos das mais variadas áreas e enfoques sobre as polemicidades, no período aqui considerado (sécs. IV ao XVI), tendo como horizonte as suas implicações com o poder e com o saber.

 (1) SÈRE, Bénédicte. Introduction. In: SÈRE, Bénédicte (dir.). Les régimes de polémicité au Moyen Âge. Rennes: Presses universitaires de Rennes, 2019, pp. 7-14, p.7, tradução nossa.
  (2) LEVELEUX, Corinne. Recensions. Bénédicte Sère. (dir.), Les régimes de polémicité au Moyen Âge. In: Archives de sciences sociales des religions, 192, oct./déc. 2020, pp. 293-296, p. 293.
  (3) Idem.
  (4) Ver os trabalhos reunidos no volume organizado por Bénédicte Sère. Les régimes de polémicité au Moyen Âge. Rennes: Presses universitaires de Rennes, 2019.
  (5) DENIS, Delphine. Préface. In: ALBERT, Luce; NICOLAS, Loïc. (éds.). Polémique et rhétorique: de l’Antiquité à nos jours. De Boeck Supérieur, 2010, pp. 16-48, pp. 13-16, p. 13.

 

Os prazos para o envio de artigos, resenhas, entrevistas e traduções são:

 

- envio de propostas: até 31/07/2022;

- aceite dos trabalhos: entre agosto e setembro de 2022;

- publicação do dossiê: até outubro de 2022.

 

As propostas devem ser enviadas para o e-mail: revistarodadafortuna@gmail.com

 

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Regime of Polemics in Medieval World
 

Organizers:

Ana Paula Tavares Magalhães Tacconi (USP)

Patrícia Antunes Serieiro Silva (USP)

This call for papers aims to gather contributions that privileges in their analysis aspects linked to polemics in the medieval world, a period defined by Bénedicte Sère as “a science of disputatio, of an expertise in controversy or even of an exercise of polemics” (1). In fact, the medieval period assembles themes and episodes of intense verbal confrontation: Byzantine iconoclastic controversy, controversies in the “Gregorian” period, controversy between seculars and mendicants, various religious controversies between Catholics and  their “enemies” (pagans, heretics, Jews, Muslims, Protestants, etc.), universals controversy... Just to title a few of them!
   

It can be said that “polemic” – and its counterpart “controversy” –, as a field of study for historians, especially medievalists, is something kind of recent and, therefore, still under construction. One of the main reasons for the current historiographical interest in this subject originates, as Corinne Leveleux  highlighted, in the contemporary context itself, saturated with ordinary controversies, stimulated by social networks (2). Undoubtedly, the two forms of polemics – the present  one and this one from the past – are not the same. Nevertheless, they would produce similar consequences, such as “polarizing effects” and concerning for “communities of opinion”, claimed, or condemned (3).  
 

The word “polemic” from Ancient Greek ‘polemikos’ means a “verbal war”, a “duel of words”, between at least two enunciators situated in antagonistic positions. In this context, this word consist, fundamentally,  by the attack and the opposition, whose intention is a systematic disqualification of its opponent, real or imaginary, through an insulting and defamatory statement. On the other hand, it is important to elucidate that polemic is not properly considered a literary genre, not even the term can be found in medieval texts. In the light of this fact, we use the expression “regimes of polemics”, as proposed  by some historians (4), for conveying an idea of a greater or lesser degree of controversy, consequently solving, in part difficulties imposed by the term.
 

From a discursive perspective, polemical discourse can be described as a “device”, as Delphine Denis considered based on a concept of Giorgio Agamben, because: a) it is a heterogeneous set, encircling discursive subjects or not (institutions, laws, philosophical propositions, etc.); b) it always has a defined strategic objective and it is based on a power relationship; c) and, finally, it results from intersections between power and knowledge.  Concerning this last point, for instance, and it is not randomly, a specialized and imposing knowledge about the Church's opponents (heretics, Jews, Muslims, etc.) was abundantly produced by Catholic polemicists in medieval religious controversies.
 

As a result of what has been exposed here, we call to apply works from the most varied areas and approaches on medieval polemics, in the period covered here (4th to 16th centuries), reviewing its consequences for power and knowledge (5).

(1) SÈRE, Bénédicte. Introduction. In: SÈRE, Bénédicte (dir.). Les régimes de polémicité au Moyen Âge. Rennes: Presses universitaires de Rennes, 2019, pp. 7-14, p.7, tradução nossa. 

(2) LEVELEUX, Corinne. Recensions. Bénédicte Sère. (dir.), Les régimes de polémicité au Moyen Âge. In: Archives de sciences sociales des religions, 192, oct./déc. 2020, pp. 293-296, p. 293. 

(3) Idem. 

(4) On this matter, see the papers selectioned by the author in: Bénédicte Sère. Les régimes de polémicité au Moyen Âge. Rennes: Presses universitaires de Rennes, 2019. 

(5) DENIS, Delphine. Préface. In: ALBERT, Luce; NICOLAS, Loïc. (éds.). Polémique et rhétorique: de l’Antiquité à nos jours. De Boeck Supérieur, 2010, pp. 16-48, pp. 13-16, p. 13.
 

The deadline for submitting articles, reviews, interviews and translations are:

 

- submission of proposals: until July 31, 2022.

- acceptance of works: between August and September, 2022.

- dossier published: until October, 2022.

 

Proposals must be sent to the e-mail: revistarodadafortuna@gmail.com

 

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Regímenes de Polemidad en el Mundo Medieval
 

Organizadoras:

Ana Paula Tavares Magalhães Tacconi (USP)

Patrícia Antunes Serieiro Silva (USP)

Esta convocatoria pretende reunir contribuciones que privilegien, en sus análisis, aspectos relacionados con la polémica en el mundo medieval, período definido por Bénedicte Sère como “una ciencia de la disputatio, de un saber hacer de la controversia o incluso de una práctica de la polémica” (1). De hecho, el medioevo recoge temas y episodios de intenso enfrentamiento verbal: la querella iconoclasta, las querellas del período “gregoriano”, la querella entre seglares y mendicantes, las diversas controversias religiosas entre católicos y “enemigos” (paganos, herejes, judíos, musulmanes, protestantes, etc.), la disputa de los universales... ¡Solo para nombrar algunos!
 

Se puede decir que la “polémica” – y su congénere la “controversia” –, como campo de estudio de los historiadores, especialmente de los medievalistas, es algo más o menos reciente y, por lo tanto, aún en construcción. Una de las razones del interés historiográfico actual por el tema se origina, como observó Corinne Leveleux, en el propio contexto contemporáneo, impregnado de controversias cotidianas, estimulado por las redes sociales (3).  Obviamente, las dos formas de polémica, la del presente y la del pasado, no son lo mismo. Sin embargo, producirían consecuencias similares, como los “efectos polarizadores” y la preocupación por las “comunidades de opinión”, reivindicadas o denunciadas. 


Por “polémica”, del griego polemikos, se entiende una “guerra verbal”, un “duelo de palabras”, entre al menos dos enunciadores situados en posiciones antagónicas. En este contexto, la toma de palabra se configura, fundamentalmente, por el ataque y la oposición, cuya intención es la descalificación sistemática del oponente, real o imaginario, a través de una declaración injuriosa y difamatoria. Por otro lado, es importante aclarar que no se considera propiamente la polémica un género literario, ni siquiera la palabra se encuentra en los textos medievales. Ante ello, utilizamos la frase “regímenes de polemidad”, propuesta por algunos historiadores (4), pues transmite la idea de un mayor o menor grado de polémica, solucionando así, en parte, las dificultades que impone el término.


Desde una perspectiva discursiva, el discurso polémico puede entenderse como un “dispositivo”, como consideró Delphine Denis a partir del concepto de Giorgio Agamben, ya que éste: a) es un conjunto heterogéneo, abarcando o no cosas discursivas (instituciones, leyes, proposiciones filosóficas etc.); b) siempre tiene un objetivo estratégico definido y se basa en una relación de poder; c) y, finalmente, se deriva de las intersecciones entre el poder y el saber.  Sobre este último punto, a modo de ejemplo, no es casualidad que los polemistas católicos en las controversias religiosas medievales produjeron abundantemente conocimientos especializados y autorizados sobre los adversarios de la Iglesia (herejes, judíos, musulmanes etc.).


En vista de lo anterior, alentamos trabajos de las más variadas áreas y enfoques sobre la polémica, en el período aquí considerado (siglos IV al XVI), teniendo como horizonte sus implicaciones para el poder y el saber (5).
 

(1) SÈRE, Bénédicte. Introduction. In: SÈRE, Bénédicte (dir.). Les régimes de polémicité au Moyen Âge. Rennes: Presses universitaires de Rennes, 2019, pp. 7-14, p.7, tradução nossa. 

(2) LEVELEUX, Corinne. Recensions. Bénédicte Sère. (dir.), Les régimes de polémicité au Moyen Âge. In: Archives de sciences sociales des religions, 192, oct./déc. 2020, pp. 293-296, p. 293.

 (3) Idem. 

(4) Ver las obras reunidas en el volumen editado por Bénédicte Sère. Les régimes de polémicité au Moyen Âge. Rennes: Presses universitaires de Rennes, 2019. 

(5) DENIS, Delphine. Préface. In: ALBERT, Luce; NICOLAS, Loïc. (éds.). Polémique et rhétorique: de l’Antiquité à nos jours. De Boeck Supérieur, 2010, pp. 16-48, pp. 13-16, p. 13.

Los plazos para el envío de artículos, reseñas, entrevistas y traducciones son:

 

-Envío de trabajos: hasta el 31 de julio de 2022

-Trabajos aceptados: entre agosto y septiembre de 2022

-Publicación del Dossier: octubre de 2022

 

Las propuestas deben enviarse al correo electrónico: revistarodadafortuna@gmail.com

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